sábado, 20 de dezembro de 2008

Olá!

Tempo, tempo, tempo, tempo... ih, até parece aquela música do Caetano. Fiquei out, sabem como é: fim de ano, provas para corrigir, o vestibular dos meninos do cursinho, reuniões, conselhos de classe. Fuji daqui. Mas agora, as coisas amainam. As Festas estão à porta, depois férias. Listei o que vou fazer em janeiro, vejam se convém:

1) Tomar cafés da manhã bem demorados (é um luxo, para quem acorda cedo e corre para o trabalho todos os dias, como eu);

2) Ler bobagens (estão encomendados livros da Agatha Christie e afins), sem compromisso com a seriedade;

3) Voltar a caminhar nos fins de tarde (tive que parar com o fim do ano);

4) Ficar sem fazer nada, no sofá, à tardinha, ouvindo música...

5) etc etc etc

Pequenos prazeres assim, que mereço.


Do Jorge.

Post scriptum: Para que não se perca o costume, vá lá o do dia:

"O nadador"

O que me encanta é a linha alada
das tuas espáduas, e a curva
que descreves, passáro da água!

É a tua fina, ágil cintura,
e esse adeus da tua garganta
para cemitérios de espuma!

É a despedida, que me encanta,
quando te desprendes ao vento,
fiel à queda, rápida e branda.

E apenas por estar prevendo,
longe, na eternidade da água,
sobreviver teu movimento...

(Cecília Meireles)



domingo, 19 de outubro de 2008

O livro perdido...


Olá!



Perdi um livro. É uma sensação terrível. É como perder alguém, mesmo. Um livro é alguém, alguém que por dois ou três dias convive comigo. E que, depois dessa convivência, vai para a estante, à mão para que eu volte a esse convívio quando desejar. Os livros são memórias que se acumulam, ad infinitum.


Pois perdi uma dessas memórias. O livro em questão é "Kitty aos 22: divertimento", do capixaba Reinaldo Santos Neves. Comprei-o há alguns meses, num sebo em Vitória. Guardava-o para o momento oportuno, como faço com os livros que compro. Nunca os leio de chofre, assim. Dou um tempo para eles e para mim. Então, no momento certo, começo a lê-los. Assim o foi com o livrinho de capa vermelha, que passei a chamar de Kitty. A história me prendeu (não vou contá-la aqui, porque não se trata disso), por isso levei-o para a praia, ontem. E então, sem que eu seja capaz de dizer como, ele extraviou-se. Extraviou-se sem que eu concluísse a leitura. Faltavam poucas páginas, a história se encerrava. Mas perdeu-se antes do fim. Não se concluiu, ao menos para mim.


Por isso essa sensação terrível, de plena angústia, a macular meu domingo. Por isso, a quem interessar possa, procura-se um livro.


Do Jorge.

domingo, 14 de setembro de 2008

Recado

Olá!

O tempo, corro contra ela. Tanta coisa, tanto trabalho, papéis e livros prometem me sufocar. Desvencilho-me só para entrar aqui e dizer que estou vivo ainda, viu? E que, em breve, volto.


Do Jorge.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Uma pausa na tarde...

Pessoal,


A tarde: entre livros, pesquisando, escrevendo... na vitrola, João (porque, melhor que o silêncio, só ele mesmo), cantando baixinho, em "inaudível som". Faço uma pausa e faço o café. Forte, o faço sem filtro. Como gosto. E, parado no meio da sala, xícara em riste, a revelação do dia: Cecília Meirelles! Lembro com a clareza de quem se prepara para recitar:


"Quarto Motivo da Rosa"

Não te aflijas com a pétala que voa: t
ambém é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzidas, mortas,
intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos ao longe,
o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.



Suspiro, profundamente. A xícara agora está rasa. Só.


Do Jorge.

sábado, 26 de julho de 2008

Orides Fontela

Pessoas,


Um achado! É só que posso dizer hoje da poesia de Orides Fontela. Não que a tenha conhecido agora, nessa altura. Há muito tenho o seu conhecimento. O que achei (re-descobri) foi a sua poesia. Delicada, sutil, sensorial, vívida, táctil, são todos adjetivos que se pode atribuir a sua obra, que acabo de devorar, numa bela e bem cuidada edição da Cosac & Naify. Mas é, sobretudo, uma poesia extremamente simples a que brota do centro do coração dessa mulher, falecidade em 1998 e que, ao contrário de sua obra, teve uma vida difícil. Beirando a indigência, Orides parece ter querido, depois do seu segundo livro, "Helianto" (1973) se isolar do mundo, deixando o emprego de bibliotecária, a família e os amigos, e se enclausurando num minúsculo apartamento em Campinas, de onde saía pouco e onde vivia em condições absolutamente precárias, contando com o apoio de alguns poucos que ainda mantinham com ela algum tipo de contato, como é o caso do poeta Augusto Massi. Morreu misérável e desconhecida do grande público.

Mas, como disse, a obra é maior que ela. Quero dizer, a obra ultrapassa a vida cruel dessa mulher e nos chega com uma limpidez impressionante. Atinge-nos em sua plenitude e em sua verdade. Verdadeira porque feita com palavras, as mais simples. Tendo como ponto de referência a fenomenologia husserliana, seus texto representam um articulado diágolo entre o mundo (e seu mistério) e a experiência humana (e sua intensidade). São momentos de rara beleza e encantamento, como o que se pode encontrar em "Pedra": "A pedra é transparente / o silêncio se vê / em sua densidade. / (...) / O verbo é transparente: / o silêncio o contém / em pura eternidade". Trata-se, pois, da decifração do fenômeno, da beleza contida e aparentemente oculta na natureza das coisas ("pedra"), mas que se revela através das palavras, claramente ("o verbo é transparente"). Mas, que ninguém se engane: apenas lapidando-as é que se deixam compreender, as palavras. Tirar o verbo claro da pebra bruta: eis o triunfo de Oride. E deixar que digam o indizível, como toda a grande poesia diz. Como a contida neste texto:



POEMA


Saber de cor o silêncio
diamente e/ou espelho
o silêncio além
do branco.


Saber seu peso
seu signo
- habitar sua estrela
impiedosa.


Saber seu centro: vazio
esplendor além
da vida
e vida além
da memória.


Saber de cor o silêncio.


- e profaná-lo, dissolvê-lo
em palavras.



(in "Alba", 1983)



Salve, pois, Orides Fontela, ourives da palavra, grande poeta!



Do Jorge.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O queijo e os vermes

Pessoas,



Sumi... ando trabalhando muito... lendo muito também, sempre. Nos intervalos entre as aulas, na sala dos professores, na fila do banco, no carro (só não digo que leio nos engarrafamentos porque aqui em São Mateus não os temos, ainda), na casa dos amigos, na cama... Por esses dias, ando lendo Carlo Ginzburg, um historiador italiano bastante conhecido. Ao menos, pelos historiadores e professores de História. O livro é o já clássico "O queijo e os vermes", do qual conhecia passagens estudadas nas aulas de História Medieval, na faculdade. Eis que me caiu outro dia às mãos o exemplar do livro, que a Companhia das Letras publicou na década de 90.

"O queijo e os vermes" parte da investigação dos autos do processo que um certo Menocchio, moleiro de Montereale, no Friuli, região italiana, teve de responder ante o Tribunal do Santo Ofício em fins do século XVI, acusado de heresia. Narrada com extremo detalhismo, o história nos leva a um mergulho na sociedade pós-medieval e ao centro dos confrontos religiosos entre as forças protestantes e o catolicismo, mas sobretudo àqueles que, sem professar uma ou outra tendência, produziam livres-interpretações da fé, como é o caso de Menocchio, que é visto como herege por dizer que "Deus é o ar, o mar, a terra e o vento". Renega os sacramentos e dogmas católicos e apregoa um cristinismo puro, livre da opulência e da "mercadologia" da fé difundida pela Igreja Católica ao longo dos tempos.

O texto de Ginzburg, filiado aos preceitos teóricos da novelle histoire, é luminoso e cativante, já que a partir do específico, analisa hábitos e dinâmicas sociais do período de transição entre o Feudalismo e a Modernidade. Sem pedantismo ou tecnicismo, hermetismos ou futilidades. É como diz Renato Janine Ribeiro, na orelha do livro, trata-se de um texto tanto para especialistas, como para o leitor comum. Pode ser, portanto, tanto um livro técnico, quanto um texto narrativo (não ouso dizer literário, contudo) da melhor qualidade.



Do Jorge.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Tarde salva

Olá,


Já disse que tenho verdadeira adoração pela tarde e suas pequenas (e belíssimas) epifanias. Pois hoje, foi Bach quem salvou a minha: a mesa caudalosa de papéis e diários escolares, provas a corrigir e um livro técnico sobre Camões para dissecar (já pensando na aula da semana que vem, ô cabeça que não pára), já ia adiantado o meu estado de estresse. Mais eis que Bach! Pus Bach para tocar no som, "A Paixão Segundo São Mateus" e pronto. Fiquei salvo. A música de Bach (que é a voz de Deus, creio nisso) me faz me sentir como o náufrago que, à deriva, recebe o valioso bote e é grato por esse gesto a vida inteira. Por isso me sinto salvo para sempre. Ou pelo menos salvo esta tarde inteira.

Do Jorge.