domingo, 8 de agosto de 2010

Um consolo


Olá!



Busco agora um consolo para a alma, para aliviá-la um pouco das dores do mundo. E ele vem, sempre vem. Dessa vez, via Camões e sua maravilhosa "Lírica". Ei-lo:



"Se só de ver puramente
Me transformei no que vi,
De vista tão excelente
Mal poderei ser ausente,
Enquanto o não for de mi.
Porque a alma namorada
A traz tão bem debuxada
E a memória tanto voa,
Que, se a não vejo em pessoa,
Vejo-a na alma pintada".
(Lírica, p. 64)



Do Jorge.

sábado, 7 de agosto de 2010

A estante




Olá!






Já disse aqui que sou vidrado em estantes. Vivo fuçando fotos na internet de estantes alheias. Porque uma estante é, antes de tudo, um aglomerado de memórias. As pessoas põe ali um pouco (ou muito) de sua história pessoal. Entram livros, discos, objetos, fotografias, lembranças que se acumulam ao longo de uma vida. Por isso hoje resolvi postar uma foto da minha estante. É meu mundo. É o lugar ao qual recorro sempre que preciso de de um alento, de diversão, de socorro mesmo. Às vezes, longe daqui de casa, súbito penso nela, nos livros e discos amados, como pessoas com as quais posso contar. Uma estante é fiel. A minha é. Deixa-me voltar a ela, então.






Do Jorge.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Adélia está de volta


Olá!



Li uma notícia na internet que me deixou em alfa: a poeta Adélia Prado vai lançar um livro novo agora em agosto, pela Record (a editora, não a tv, pelo amor!). Trata-se de "Campo de névoa", o primeiro livro de inéditas da autora desde "Oráculos de Maio", lançado em 1999. Há algum tempo, escrevi um post aqui com a pergunta, "Onde onda Adélia Prado?", e agora, eis a resposta. Fiquei louco de felicidade e logo corri às estantes, buscando um texto dela para postar aqui, como poema do dia, enquanto não sai o livro novo. Abri e eis o que me disse o oráculo:



A FORMALÍSTICA



O poeta cerebral tomou seu café sem açúcar
e foi para o gabinete concentrar-se.
Seu lápis é um bisturi
que ele afia na pedra,
na pedra calcinada das palavras,
imagem que elegeu porque ama a dificuldade,
o efeito respeitoso que produz
seu trato com o dicionário.
Faz três horas que estuma as musas.
O dia arde. Seu prepúcio coça.
Daqui a pouco já começam a fosforecer coisas no mato.
A serva de Deus sai de sua cela à noite
e caminha na estrada,
passeia porque Deus quis passear
e ela caminha.
O jovem poeta,
fedendo a suicídio e glória,
rouba de todos nós e nem assina:
"Deus é impecável".
As rãs pulam sobressaltadas
e o pelejador não entende,
quer escrever as coisas com as palavras.

(IN: "Poesia reunida", p. 376)



Beleza, não? Acho genial essa idéia de que as coisas não são escritas com as palavras. Porque, de verdade, não são.




Do Jorge.

domingo, 1 de agosto de 2010

Boa Esperança do Espírito Santo


Olá!



Carlos Drummond de Andrade escreveu, nostálgico, naquele que é um de seus poemas mais conhecidos (e mais pungentes), "Confidência do Itabirano": "Itabira é só um retrado na parede, / mas como dói!". Esse poema sempre me comoveu, por se tratar da palavra sincera de um poeta que, a despeito de toda a fama conseguida e da certeza de construir uma obra que alçou a perfeição, volta o seu olhar para trás, para a província, o lugar de onde veio. O olhar de quem reconhece que é, "principalmente, Itabirano".

A verdade é que todos viemos de algum lugar. Mesmo que estejamos em Nova York, Roma, Paris, São Paulo ou mesmo São Mateus, trazemos conosco as raízes, como árvores deslocadas, às vezes à força, mas que carregam consigo o signo original, a raiz pregada ao tronco.

E quão maravilhoso para mim foi descobrir, esta semana, encravado no meio do livro "Transpaixão", do poeta Waldo Motta, esperancense como eu, e que faz um sucesso danado por aí, o poema "Boa Esperança do Espírito Santo". Foi como um tapa na cara, uma sacudela na espinha, um bafejo forte de ar, que me trouxesse de volta o cheiro da minha terra. Que está logo ali, a 90 km de São Mateus, mas que, pelos caminhos que nos leva a vida, vai amarelando, como um retrato velho (como aquele na parede, ô Drummond), diluído pela distância. E pela ausência. Estou sempre lá, é certo, minha família (outro elo original) está lá, mas eu não estou mais lá, cotidianamente, vivendo nela. Não respiro mais aquele ar (puro, límpido como é o ar de nossa terra) todos os dias, não piso mais aquele chão tão caro como o chão da minha própria infância. Daí a beleza daquele poema. Eu o li em voz alta, com a voz clara, para mim e Mary. Senti, ao final, o nosso suspiro, carregado de recordações, indo fundo na memória, indo parar lá naquele pedaço de terra no mundo, o nosso lar, "Boa Esperança do Espírito Santo":



Boa Esperança, dom
que me coube e partilho.
Embutido em teu nome,
descobri o meu destino:
combater a própria morte
e o seu reino de mentiras.

Norte espírito-santense,
Boa Esperança, aqui
meu segredo se desvenda:
quem eu sou e a que vim.

(Waldo Motta, "Transpaixão", p. 46)




Do Jorge.
P.S.: A foto? Pedra da Botelha, símbolo de Boa Esperança. Não é o Everest, sei. Mas tem a mesma beleza, a mesma que ele o tem para quem vive no Himalaia. A mesma que tem para mim a Botelha, signo da minha terra.

sábado, 17 de julho de 2010

Leituras semanais II


Olá!



Terminei anteontem de ler "O esqueleto na lagoa verde", mas como estava na casa dos meus pais, acabei não postando minhas impressões sobre o livro. O que posso dizer? Uma leitura interessante, magnética e que envereda por outros caminhos que não o apenas o destino do coronel Percy Fawcett.


Longe de elucidar (ou tentar elucidar) o mistério que cerca o desaparecimento do aventureiro inglês, o livro discute, por um lado, o sonho do El-dourado brasileiro, plantado no imaginário popular desde que, em 1753, um bandeirante paulista diz ter encontrado um cidade fantástica e reluzente no coração do Brasil. Por outro lado, procura também discutir a questão indígena, apontando, inclusive, soluções para a sobrevivência do índio e de sua cultura, como, por exemplo, a criação de um parque onde as etnias restantes pudessem ter uma nova chance - e, vejam, o livro é de 1952, o que torna profética a idéia de Callado, já que, em fins dos anos 60, e por iniciativa dos irmãos Villas-Boas, é criado o Parque Nacional do Xingu!


Quanto ao coronel Fawcett? Tudo ainda é mistério, quase cem anos depois. O livro não o elucida, como disse, mas lança um pouco de luz sobre a personalidade tenaz desse inglês que, a despeito dos perigos, embreenhou-se na selva amazônica em busca da "cidade dourada". Antônio Callado, apoiando-se em relatos do filho de Fawcett, Brian, em livros - como o do inglês Dyott, que refez a viagem de Fawcett - e nas entrevistas realizadas em 1952 com os índios Calapalo - que conviveram com Fawcett e que, muito provavelmente, o mataram -, procura humanizar o aventureiro, mostrando que, muito além de desejar riqueza e fama, o que o movia era a aventura.
Foi por ela que ele empreendeu, em 1925, a viagem expedicionária à Serra do Roncador. Viagem da qual nunca voltou, mas que acabou por imortalizar sua aventura, que foi dar em personagens como o intrépido Indiana Jones, por exemplo.
Do Jorge.
P.S.: A foto acima mostra Fawcett e Raleigh Himmel, amigo de seu filho Jack. Juntos, os três partiram para selva em 1925, de onde nunca regressaram.



terça-feira, 13 de julho de 2010

Leituras semanais


Olá!



Acabei de ler 0 romance "Uma história de família", do Silviano Santiago. Belo livro, curto e cerebral, como é a ficção do Santiago. Dele, também comprei "Heranças", que está aqui sobre mesa esperando a vez. Como também estão "A caverna" e "Todos os nomes", do Saramago, "O relógio Belisário", do José J. Veiga, "O livros dos sonhos", do Borges... tantas leituras. No entanto, acabei dando prioridade a outro livro nesse esse meio de semana: "O esqueleto na lago verde".

Um livro de não-ficção, digo logo. Trata-se de uma enorme reportagem do então repórter especial do Jornal do Brasil, Antonio Callado (que veio, como sabem, a se tornar um dos nossos maiores ficcionistas), sobre o desaparecimento do explorador inglês Percy Fawcett no Alto Xingu, ocorrido em 1925, em plena floresta amazônica, quando este buscava vestígios de uma cidade perdida que julgava se encontrar naquelas paragens. Callado refez a viagem do explorador em 1952, da qual resultou este livro extraordinário (e olha que estou nas primeiras páginas). Mas é daquelas leituras magnéticas, posso dizer, daquelas que não dá para largar o livro.

Só o início já diz muito:




"Inocência também pega. Logo que a gente chega ao Posto Culuene, da Fundação Brasil Central, o choque demasiado bruto paralisa o raciocínio. A gente só sabe que saiu da cidade de São Paulo, num aparelho monomotor, umas sete horas antes: como é possível que agora, à beira daquele rio, homens e mulheres estranhos, mongoloides, inteiramente nus, cerquem o avião?


Mas inocência pega. Ao cabo de duas horas não estamos mais empenhados em fingir que não reparamos na nudez dos índios. Passamos, ao contrário, a encará-la com naturalidade. E a vitória foi puramente da inocência deles, da candura e falta de malícia deles. De toda a nossa indumentária — das botas ao chapéu — os índios e as índias só prezam uma coisa: a camisa, que protege dos mosquitos. Tudo mais que usamos é, portanto, incompreensível para eles. Mas dizendo “incompreensível” dizemos mal. Por que haveriam eles de tentar compreender a razão de andarmos com
tantos panos em cima da pele? Acaso perguntam ao poraquê por que dá choques ou à onça por que tem pelo? O que não lhes ocorrerá jamais é que tenhamos motivos psicológicos para usar roupa, ou que, por termos começado um dia a usar roupa, não a possamos mais abandonar por motivos psicológicos.

O índio (a menos que já tenha sido civilizado) não faz perguntas embaraçosas pelo simples fato de não conhecer o embaraço. É uma criança. Ainda vive aquém do Bem e do Mal."

(p.13-14)



Escrevo mais quando terminar.



Do Jorge.



Oração ao tempo


Olá!



Certas canções. Certas canções pegam a gente de jeito, como se pelo braço, e nos obrigam a parar e ouvi-las com atenção. Com os cinco sentidos alertas, captando-as. Foi assim, hoje de manhã, quando coloquei na vitrola o cd da Rita Ribeiro, "Tecnomacumba". É um disco de muita batida (e eis que agora lembro que hoje é dia do Rock), mas há uma canção que destoa. Ou melhor, que sobrevoa o disco: "Oração ao tempo", do Caetano. Mil e uma gravações dela existem, eu sei, mas a da Rita... A da Rita ficou pairando pela casa, parou o tempo em mim. A letra é, talvez, uma das mais belas homenagens-reflexões ao tempo. E voz dela, com o arranjo de Israel Dantas, é de fazer chorar. Eu, ao menos, chorei. Chorei pensando, como diz Caetano, que o tempo é mesmo um dos "deuses mais lindos".



ORAÇÃO AO TEMPO


És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...


Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...


Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...


Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...


Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...


De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...


O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e migo
Tempo tempo tempo tempo...


E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...




Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...



Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...
(Caetano Veloso, 1979)





Do Jorge.
P.S.: A foto é de Rita Ribeiro, encantando...