sábado, 10 de julho de 2010

Chico ao car da tarde


Olá!



Sintonizei uma dessas rádios que têm na tv e fiquei quieto na sala, ouvindo música. Supresa, mais que supresa (e grata): Simone cantando "Trocando em miúdos". Divino-maravilhoso, pensei. Combina com a tarde caindo, uma canção pungente sobre um amor que se vai, uma canção para tarde que também se vai. A letra fica como o poema do dia. Porque Chico Buarque é poeta, certo. E dos bons:



TROCANDO EM MIÚDOS


Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim!
O resto é seu


Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças


Aquela esperança de tudo se ajeitar
Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter

Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado


Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu


Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde

(Chico Buarque)



Lindo, não?



Do Jorge.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A viagem do elefante


Olá!



Sempre usei este blog para falar, basicamente, da minha experiência de leitor - e descubro, olhando lá no início, quando comecei a narrar minha "experiência de vivente" através desse hiper-espaço, quando pensava em escrever sobre tudo o que fosse importante para mim, descubro que não há nada que experencio com mais intensidade do que a literatura e a leitura. Trato os livros como amigos, já que convivo com eles por algum tempo - e, com alguns, por toda a vida - e gosto de contar como eles incidem sobre mim, do mesmo modo como gostamos de falar dos amigos e de sua influência sobre nós. É o diário de um leitor, portanto.

E, como tal, hoje falo desse maravilhoso texto que, por um acaso, me caiu às mãos. Quando o Saramago morreu, no último 18 de junho, fui à estante à cata de seus livros, peguei com especial ternura meu exemplar de "A jangada de pedra" e imediatamente me lembrei de sua leitura (longa, já que demorei quase um mês e meio para atravessá-lo) fascinante, hipnótica, deslumbrante. Peguei também "O evangelho segundo Jesus Cristo", pensando em como ele abalou minha estrutura judaico-cristã à época da leitura (e lá se vão quase dez anos). Procurei me reencontrar com Saramago naquela noite, quando de sua morte. Dois dias depois, ao fazer compras com Mary, deparei-me com um exemplar de "A viagem do elefante", penúltimo livro do autor português, publicado em 2008, na banca de revistas do supermercado. Claro que não resisti e o comprei, mais como uma espécie de última reverência ao finado autor. Não foi, pois, uma leitura planejada, desejada. Lembro de ter lido uma resenha na Folha quando do lançamento do livro e só. Não foi um livro que logo quis ler. Deixei-o de lado. Pois ele veio até mim.

E que texto! A história do romance (Saramago escreve "conto" abaixo do título) é bastante simples. Em 1551, o rei português D. João III decide dar de presente a seu cunhado, o arquiduque Maximiliano da Áustria, um elefante de presente de casamento, um elefante que a Corte Portuguesa tinha adquirido anos antes como uma espécie de mimo à suas majestades, mas que agora tinha pouca ou nenhuma serventia. Partindo desse fato, real, José Saramago reconta viagem de Salomão (o elefante), de Lisboa até Viena, sob os cuidados do cornaca Subhro, seu fiel tratador. Com engenho e arte (perdão pelo clichê), as peripécias da caravana, que metade do caminho é portuguesa, metade é austríaca, são narradas, sempre com a pena fina da ironia e do humor, caminhos que Saramago conhecia bem. Salomão, mais que um simples elefante, torna-se a razão e a causa de vida daquelas pessoas, ao menos ao longo da travessia de meia Europa. Uma Europa a um só tempo pós-feudal e pré-moderna, que vai se desvelando em seus jogos de poder e de interesse, catalisados pela figura do magnífico paquiderme que é Salomão. Um livro raro.

Como texto do dia, claro, posto um trecho do romance. Um detalhe importante: Saramago optou por escrever todos os nomes próprios, de personagens e lugares, com letra minúscula, talvez numa tentativa de igualar a todos através da linguagem. Por isso, a citação vai como está no romance:


"Diz-se, depois de que primeiro o tivesse dito tolstoi, que as famílias felizes não tem história. Também os elefantes felizes não parece que a tenham. Vejam-se, por exemplo, o caso de salomão. Durante duas semanas que esteve em bressanone, descansou, dormiu, comeu e bebeu à tripa-forra, até chegar com o dedo, algo assim como umas quatro toneladas de forragem e uns três mil livros de água, com o que pode compensar as numerosas dietas forçadas a que havia sido obrigado a submeter-se durante a longa viagem por terras de portugal, espanha e itália, quando nem sempre foi possível reabastecer-lhe com regularidade e despensa."

(p. 233)



Beleza, não? Leiam, pois, leiam esta maravilhosa jóia que é "A viagem do elefante". É Saramago em sua melhor forma.



Do Jorge.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Loucura


Olá!




Hoje, um poema só pra mim, para exorcisar meus fantasmas de junho (coisinhas que só eu entendo): "Loucura", do Silviano Santiago.



LOUCURA



Eram muitos os loucos então:
em cada quintal,.
correntes para o acesso.
Em cada fundo de quintal,
uma sombra suja entre as árvores,
sombra adulta pastando,
armando arupuca
de pegar passarinho.


A família o protege
e só não o esconde dos íntimos.

(IN: "Crescendo durante a guerra numa província ultramarina", p. 83).



Do Jorge.

domingo, 27 de junho de 2010

Meu segredo mais sincero





Olá!




Uma grata surpresa este fim de semana foi o disco "Meu segredo mais sincero", da Leila Pinheiro. Trata-se de um songbook dedicado ao Renato Russo, compositor que a Leila frequenta constantemente. Com sua afinação e elegância vocal características, a cantora paraense passeia por canções como "Índios", "Angra dos Reis", "Metal contra as nuvens", "Teatro dos vampiros" e "Há tempos", com categoria e reverência à obra do Renato, de quem ela foi amiga pessoal. Há no disco, ainda, a a comovente "Hoje", canção composta pelos dois e que aqui ganha uma versão luminosa.



É uma viagem afetiva pela memória, sobretudo no meu caso, que cresci nos anos 90 alimentado pelas canções da Legião, canções que sempre deixam a sensação de que "foram escritas para nós mesmos". E por nós mesmos. E como o poema do dia, posto uma canção presente no disco, que é, para mim, uma das mais belas reflexões sobre a juventude contraposta à passagem imperiosa do tempo, "Tempo perdido". Sempre que sinto que o tempo avança sobre mim, com (no dizer de Nélida Piñon) sua "seta de prata", gosto de repetir o mantra do Renato: nada importa, porque gosto de imaginar que ainda "somos tão jovens!".
TEMPO PERDIDO

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo...

Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder...

Nosso suor sagrado
É bem mais belo
Que esse sangue amargo
E tão sério
E Selvagem!
Selvagem!Selvagem!...

Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
É da cor dos teus olhos
Castanhos...
Então me abraça forte
E diz mais uma vez
Que já estamos
Distantes de tudo

Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo...

Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora
O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens...

Tão Jovens!
Tão Jovens!...

(Renato Russo)




Do Jorge.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Silviano Santiago


Olá!



Tenho lido às pampas esta semana! Explico: como tenho tido picos de hipertensão, meu médico achou por bem me deixar de molho em casa. Concedeu-me uma salutar licença médica, longe de fortes emoções. Traquilidade, eis o que me receitou ele. Aproveitei, claro, para ficar em casa e colocar algumas leituras em dia. Depois de "O reencontro", sobre o qual falei ontem, hoje devorei um livro recém comprado num sebo da internet, que há tempos vinha correndo atrás: "Crescendo durante a guerra numa província ultramarina", do Silviano Santiago. Sempre fui um leitor costumaz do Santiago, tanto da sua obra literária, quanto de sua obra teórica, que me serviu de aporte muitas vezes durante os textos construídos no mestrado. Escrevi, inclusive, uma monografia, orientada pelo professor Luís Eustáquio Soares, sobre "Histórias mal contadas", um dos livros de contos do Silviano. É, pois, um autor que eu frequento sempre que posso.

Aproveitei, pois, a folga para lê-lo. E o li de uma sentada, como geralmente faço com os livros de poemas. Não que se trate de um livro fácil, nada disso. A poesia de Silviano Santiago, a exemplo de "Cheiro forte", é densa e sempre reflexiva. No caso de "Crescendo...", o autor faz um revisão das décadas de 30 e 40, período em que crescia num Brasil polarizado entre o entreguismo e a influência norte-americana e o nacionalismo e a penetração do ideário comunista. Ou seja, trata-se de uma obra que dialoga com a História, mas que também cria um discurso meta-histórico, já que se propõe a ser uma visão particular, individual, de alguém que cresceu numa província ultramarina em tempos históricos tão bicudos. Tudo, no entanto, é narrado com a pena fina da ironia, com um certo olhar que vai além das lentes azuis (do entreguismo) ou vermelhas (do nacionalismo), para ficar num delicioso entre-lugar do discurso. De onde se tem, sempre, uma visão ampla e aberta das coisas. E é a que Silviano apresenta, uma visão polissêmica desses anos tão frequentemente polarizados que o autor procura costruir neste pequeno grande livro.

Como se pode ler em "Pica-pau amarelo", poema do livro e que fica também como o texto de hoje:


PICA-PAU AMARELO


Emília luta
contra Tarzã.
Lobato
contra o entreguismo.
Uma questão
de patriotismo.


O que que é isso,
meu Deus?
(p. 51)



Do Jorge.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Um pequeno belo livro



Olá!








Ontem, escolhendo um livro para levar para cama, decidi-me por "O reencontro", de Fred Uhlman, autor alemão, de pouca expressão aqui no Brasil. O livro, o trouxe da biblioteca da escola e há tempos estava sobre a mesa, esperando a hora oportuna de lê-lo. Senti que ontem era a hora.


E eis que, desde as primeiras páginas, senti-me diante de uma pequena obra-prima! Não só pela extrema simplicidade da escrita, mas também pela comovente história que é contada: dois adolescentes se conhecem na escola em Sttutgart, na Alemanha pré-nazista. Hans, judeu e filho de um médico eminente da cidade, vive num mundo particular e inalterado pelas questões e premências políticas da época, e Konradin, alemão, membro de uma das famílias mais tradicionais da nobreza do país e com um enorme senso de classe. Esses dois meninos, de personalidades aparentemente díspares, se tornam amigos e esse amizade os protege de todas as reviravoltas de seu tempo. Lealdade, respeito, admiração e honradez são sentimentos que um aprende a cultivar na companhia do outro e, embora os tempos sejam mais do que sombrios (falamos da ascensão de Hitler e do Nazismo), esses dois adolescentes tentam viver plenamente, se tornando nada menos que Homens. Mesmo sentindo-se atraído pelo ideário de Hitler, Konradin tenta a todo custo proteger seu amigo, que é judeu e, por isso, alvo fácil da ira dos alemães. A História os separa por trinta anos, até que, nas páginas finais, se dá um comovente reencontro.


Uma beleza de livro, sem dúvida. Mais que indicado, sobretudo para aqueles amam a Humanidade com paixão e que acreditam, ainda, nela e em capacidade de regeneração, a despeito dos negros tempos em que vivemos.








Do Jorge.









terça-feira, 22 de junho de 2010

Saramago II


Olá!



Passando os olhos por alguns trechos das obras de Saramago que tenho aqui na biblioteca, me deparo com esta maravilha de texto, de "O Evangelho segundo Jesus Cristo", talvez o mais brilhante dos romances do autor português (e que fica como o texto de hoje):



"O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso de suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram o chorar, e chorará por este mesmo e único motivo. Envolto em panos, repousa na manjedoura, não longe do burro, porém não há perido de ser mordido, que ao animal prenderam-no curto. Zelomi saiu fora a enterrar as sencundinas, ao tempo que José se vem aproximando. Ela espera que ele entre e deixa-se ficar, respirando a brisa fresca do anoitecer, cansada como se tivesse sido ela a parir, é o que imagina, que filhos seus próprios nunca os teve". (p. 83)

Precisa mais?



Do Jorge.