domingo, 4 de setembro de 2011

É isto um homem?




Olá!





Nunca acreditei que o escritor Primo Levi tenha se suicidado, ao cair no vão da escada de sua casa, em 1987. Simplesmente porque não posso imaginar um homem que, tendo sobrevivido ao campo de Auschwitz e, mais, tenha tido a coragem de reviver durante toda uma vida essa tenebrosa experiência através de seus livros, tenha sido capaz de dar cabo à própria vida na velhice. Penso sempre num acidente, num irônico acidente, nada mais.

Sempre fui fascinado pela literatura de testemunho, sobretudo aquela referente ao Holocausto. Em parte por conta da minha afinidade com a História, pela própria natureza do meu trabalho. E em parte porque penso ser necessário revivê-lo para que nunca mais se repita aquele horror. Dessa forma, ler sobre o sofrimento do povo judeu durante a Segunda Guerra me torna mais humano, me põe nu diante da minha sempre falha natureza, me mostra o quão pequeno sou e quão insignificantes são meus "sofrimentos" diante daquele. E talvez ninguém tenha escrito com tanta maestria sobre o Holocausto do que Primo Levi, esse judeu italiano que, tendo ido lutar contra os nazistas no movimento de libertação da Itália, "Giustizia e Libertà", acabou detido pelas milicias fiéis à Mussolini e, descoberta sua origem judaica, acabou deportado para Auschwitz. E ao qual sobreviveu, sendo libertado pelas tropas soviéticas em janeiro de 1945, meses antes do fim da guerra.

A experiência naquele que é considerado o mais cruel dos campos de concentração nazistas pautou toda a literatura de Levi. São fundamentais livros como "Afogados e sobreviventes" e "A trégua", por exemplo. Porém, seu relato mais contundente está em "É isto um homem?", um romance narrado em primeira pessoa (é a voz do próprio Levi que se esconde por trás do narrador) e que trata do cotidiano em Auschwitz. O escritor fala dos pesados trabalhos aos quais eram submetidos os prisioneiros, da forma desumana com que os guardas alemães e a SS Nazista os tratavam, da cruel experiência da fome, da banalidade da morte e do mal. Tudo isto é já lugar comum, certo. No entanto, nas mãos de um autor tão brilhante como Primo Levi, o Holocausto é potencializado e revivido. Principalmente porque ele escolhe o caminho da simplicidade narrativa. O que se lê não é um dramático ou grandiloquente relato (embora sejam dramáticas e grandiloquentes as situações vividas num campo de concentração), mas sim uma narrativa nua de artifícios, como se vista pelos olhos de quem, embora viva e sofra o horror do Holocausto, decida pôr de lado a dor e ser fiel aos fatos cotidianos do campo. E, paradoxalmente, essa simplicidade acaba por colocar o leitor frente a frente com o sofrimento das pequenas coisas, com a dor contida em ver homens e mulheres privados do mais básico da vida e, por isso mesmo, essencial.

Além disso, o livro de Levi funciona também como uma advertência, como disse acima. Lembra-nos que é preciso demarcar que isso aconteceu, para que nunca mais aconteça. É preciso reviver para evitar que se viva outra experiência como aquela. Daí a importância da literatura de testemunho: o testemunho como arma contra o mal. Como escreve Levi na abertura do livro, um poema a um só tempo simples e potente, sobre a dor, uma cruel pergunta ao leitor, "É isto um homem?":




É ISTO UM HOMEM?




Vocês que vivem seguros

em suas casas,

vocês que voltando à noite,

encontram comida quente e rostos amigos,

pensem bem se isto é um homem,

que trabalha no meio do barro,

que não conhece paz,

que luta por um pedaço de pão,

que morre por um sim ou por um não.

Pensem bem se isto é um mulher,

sem cabelos e sem nome,

sem mais força para lembrar,

vazios os olhos, frio o ventre,

como um sapo no inverno.

Pensem que isto aconteceu:

eu lhes mando estas palavras.

Gravem-na em seus corações,

estando em casa, andando na rua,

ao deitar, ao levantar,

repitam-na a seus filhos.

Ou, senão, desmorone-se a sua casa,

a doença os torne inválidos,

os seus filhos virem o rosto para não vê-los.




(Primo Levi, 1947)




Do Jorge.

domingo, 21 de agosto de 2011

Saramago e a memória





Olá!




Ando às voltas com os diários de Saramago, publicados sob o título de "Cadernos de Lanzarote". Neles, o autor fala desde banalidades, como a solução encontrada para escurecer o piso da casa, até o processo de redação de seus romances, como "Ensaio sobre a cegueira" e "Todos os nomes". Acompanha-se as viagens do José pelo mundo, visitando feiras literárias, dando conferências, participando de júris de prêmios e recebendo também seus próprios prêmios. Saramago é um observador arguto da realidade e seu olhar cobre importantes acontecimentos da história do final do século XX (os diários foram redigidos entre 1993 e 1997). É com desconfiança que ele vê, por exemplo, os primeiros passos da União Européia ou as políticas culturais do governo Cavaco e Silva, em Portugal. O autor também não poupa seus colegas de pena, fazendo comentários mordazes sobre a inveja que Antonio Tabucchi sente por ter sido Saramago e não ele o autor de "O ano da morte de Ricardo Reis" e a impertinência do brasileiro Autran Dourado em criticar o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Por outro lado, no livro fala-se muito dos afetos. A relação de amor com sua esposa Pilar del Río está fartamente documentada (é com doçura que Saramago reconhece que, sem ela, não teria se tornado o homem e o escritor que foi), bem como a amizade com autores (Jorge Amado e Eduardo Lourenço, por exemplo) e pessoas comuns (como os cunhados Jávier e Maria).



Além disso, os seus diários são eivados de reflexões, sobre todos os assuntos possíveis, profundas e tocantes, como apenas o autor português foi capaz de fazer. Por isso, posto aqui um fragmento sobre a memória e suas responsabilidades, elementos importantíssimos e que ocupavam um lugar central nas preocupações do Saramago escritor e também do Saramago homem público. Por um grato acaso, o texto foi escrito em 28 de fevereiro, data do meu aniversário. Boa coincidência, não?



28 de fevereiro de 1994.



"Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir".



(p. 237)




Do Jorge.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Poesia e canção




Olá!




O título deste post poderia sugerir um texto longo sobre as infinitas relações entre poesia e canção popular. Não se esqueçam que me debruço sobre este assunto há quase uma década e que escrevi tese sobre o caso específico de Caetano Veloso. Mas não será assim. O que me levou a pensar no conluio entre verso e música, nesta tarde de um inaudito azul (e é ainda agosto) foi um entrevista que acabo de ver com o Ney Matogrosso, ao programa do Domingos Oliveira e da Priscila Rozembaum no Canal Brasil. Em certa altura do papo, Domingos faz uma referência à célebre definição de Fernando Pessoa, sobre o assunto. Diz o poeta português que "A canção é uma poesia ajudada". Acho que a frase cai perfeitamente ao tipo de interpretação que o Ney, não sendo um compositor, dá às canções que escolhe (e bem as escolhe) e canta. Mas ela cabe também como síntese dessa ideia, que ferrenhamente defendo, de que a canção popular é uma forma de poesia.




Do Jorge.

domingo, 14 de agosto de 2011

Ainda sobre a página em branco




Olá!



Sei que sou um sujeito vidrado em temas recorrentes, as coisas ficam em mim e vão tomando mil formas. É só ler esse blog. Quando entro num assunto, custo a sair dele. E, nesses dias, ando pensando muito em Caetano e na folha em branco, na música dele e na inspiração perdida. A folha em branco é um horror, seja folha mesmo ou a tela em branco, com seu brilho e seu vazio. Por isso hoje posto um texto do Caê que trata justamente da impossibilidade de escrever e sua dor, "Minhas lágrimas", canção que saiu no disco "Cê", de pegada indie mas com letras absolutamente fantásticas. Como essa. Vá lá:




MINHAS LÁGRIMAS




Desolação de Los Angeles

A Baixa Califórnia e uns desertos ilhados

por um Pacífico turvo

A asa do avião,

o tapete cor de poeira de dentro do avião

Nada serve de chão

onde caiam minhas lágrimas.

(Caetano Veloso)




Do Jorge.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O poema perdido



Olá!



Perdi um poema. Não um dos que habitam os muitos livros da minha biblioteca ou de qualquer outra. Não um daqueles que, uma vez ouvidos de relance numa récita, guardei indelével na caixa da memória. Perdi um poema meu. Um poema que ainda não nascera, nem sei agora se um dia nascerá. Dele ficou apenas um verso, "a pedra e seu / ancestral chamariz de mineral". Hoje acordei com ele, ecoando. Animei-me durante a manhã, expectante, é como sempre faço quando um poema quer nascer. Ele vai-se construindo, verso a verso, em mim, até que quando me sento diante do computador, erijo o poema inteiro. E é uma alegria como poucas a que experimento nessas horas, algo perto do amor, algo perto do êxtase de Santa Teresa d'Ávila, algo perto da cristalina nota de uma trombeta angelical. Mas não foi assim, hoje. Hoje, deu-se o aborto do poema. Perdeu-se, como perde-se uma parede construída com tijolos mínimos e ainda não inteiramente fortes. O poema diluiu-se em mim, dissolveu-se entre as minhas entranhas, não quis mostrar-se. E é um desespero como poucos o que experimento nessas horas, algo perto da treva da noite, como a pungente dor ou como o som de um trise lamento. Perder um poema é como perder-se num imenso labirinto, perdida também a saída e a possibilidade de escapar. O poema emparedou-me. Estou triste como a morte.

E o consolo, se consolo há, reside na poesia, paradoxalmente. Na poesia alheia, aquela que, pela via contrária do meu poema, rompeu as barreiras e veio dar-se à luz. Por isso, hoje posto um poema-consolo, para mim, talvez para aqueles que, como eu, perderam também um poema. E é Drummond quem, do alto de sua simplicidade poética, quem consola, explicando que, ao contrário do que pensamos, é com as palavras que se escreve o poema. Não forces teu sentimentos para tentar, em vão, traduzi-los no verso, diz o poeta. Eles nascerão das palavras. Das palavras virão e abarcarão tudo, até teus sentimentos. Até a tristeza e a dor de perder, como a um filho, um poema.



PROCURA DA POESIA


Não faças versos sobre acontecimentos.

Não há criação nem morte perante a poesia.

Diante dela, a vida é um sol estático,

não aquece nem ilumina.

As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não

contam.

Não faças poesia com o corpo,

esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à

efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro

são indiferentes.

Nem me reveles teus sentimentos,

que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.

O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.




Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.

O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo

das casas.

Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas

junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza

nem os homens em sociedade.

Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.

A poesia (não tires poesia das coisas)

elide sujeito e objeto.




Não dramatizes, não invoques,

não indagues. Não percas tempo em mentir.

Não te aborreças.

Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,

vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família

desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.



Não recomponhas

tua sepultada e merencória infância.

Não osciles entre o espelho e a

memória em dissipação.

Que se dissipou, não era poesia.

Que se partiu, cristal não era.



Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

há calma e frescura na superfície intata.

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.

Espera que cada um se realize e consume

com seu poder de palavra

e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.

Não colhas no chão o poema que se perdeu.

Não adules o poema. Aceita-o

como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada

no espaço.



Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma

tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta,

pobre ou terrível, que lhe deres:

Trouxeste a chave?



Repara:

ermas de melodia e conceito

elas se refugiaram na noite, as palavras.

Ainda úmidas e impregnadas de sono,

rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


(Carlos Drummond de Andrade)




Do Jorge.