terça-feira, 9 de março de 2010

A estrada (II)


Olá!




Terminei o livro, terminou a saga do pai e do filho na terra desolada. Não conto o fim, claro. Só sonto o que se deu comigo, ao terminar: choro convulso, como há anos não me ocorria ao terminar de ler um texto. Foi difícil recolocá-lo na estante, pois sabia que separar-me dele seria como deixar uma pessoa querida, recém conhecida, mas cuja imagem se sabe ficará para sempre conosco. "A estrada", de Cormac McCarthy foi um achado que ficará ressoando ainda em mim, por muito tempo, por sua beleza, por sua potência e, sobretudo, pela verdade e humanidade da história contada.


Transcrevo aqui as últimas frases do livro. O que posso dizer? Mais que sublime:




"Antes havia trutas nos riachos das montanhas. Você podia vê-las paradas na correnteza cor de âmbar onde as extremidades brancas de suas barbatanas encrespavam de leve a superfície. Tinham cheiro de musgo na mão. Polidas e musculosas e se retorcendo. Em suas costas havia padrões sinuosos que eram mapas do mundo em seu princípio. De algo que não podia ser resgatado. Não podia ser endireitado. Nos vales estreitos e profundos em que eles viviam todas as coisas eram mais antigas do que o homem e num murmúrio contínuo falavam de mistério".




Do Jorge.

domingo, 7 de março de 2010

A estrada




Olá!



Alguns livros têm vida própria, creio nisso. No ano passado, em setembro, fui a Vitória para um encontro de professores e, no intervalo do almoço, em vez de comer num restaurante decente, fiz um fast food (coisas de quem mora no interior) e fui dar uma olhada nas livrarias do centro. Numa delas, encontrei alguns livros da Alfaguarra em promoção, acabei comprando três: "Travessia de verão", do Truman Capote, "As benevolentes", de Jonathan Littlel e "A estrada", de Cormac McCarthy. Guardei para o futuro, claro. Naquela época estava envolvido com outra leituras. De lá para cá, entrei em muitas outras, acabei esquecendo os livros na estante, como faço sempre. Até que na quinta-feira passada, meio insone, desci do quarto, bem devagar para não acordar a Mary, e procurei na estante um livro para começar. A lombada vermelha de "A estrada" parecia me chamar. Atendi, claro.

Hoje, estou nas páginas finais. O que posso dizer? Trata-se de um dos melhores livros que me caíram às mãos, o melhor que li em tempos. McCarthy já era meu conhecido do livro "Onde os velhos não têm vez" (que se tornou um belo filme dos irmãos Cohen, oscarizado em 2008). Mas este livro. Este livro é sobejamente melhor que tudo o que o autor americano já escreveu. Na orelha do livro, transcrita do The Times, está a frase: "McCarthy dá voz ao indizível (...), esta é uma arte que assusta e ao mesmo tempo inspira". O romance é de um preciocismo árduo, com cada frase dando a impressão de ter sido exaustivamente lapidada pelo escritor, para estar ali não como apenas uma frase, mas como um dito essencial, uma frase que ilustre o fim dos tempos. Porque este é um romance sobre o fim do mundo. A história é esta, em linhas gerais: após um evento apocalíptico, a Terra está devastada e poucas pessoas ainda restam vivas, lutando pela sobrevivência num planeta que se tornou terrivelmente hostil. Um homem e seu filho tentam a travessia dos Estados Unidos (ou do que restou do país) em direção ao sul, para o mar. Tentam escapar do frio e dos "caras do mal", milícias de homens que, entre outras coisas terríveis, capturam pessoas para devorá-las. Não há comida e o frio é cada vez mais insuportável. Nada resta a estas duas criaturas, além do forte laço que os une: a ideia de família e de amor. O pai ama o filho e o filho ama o pai. Esta constatação é que os mantêm vivos e os ajuda a cruzar mil perigos em busca de alguma espécie de redenção. Que não sabem bem qual é e se virá, enfim.
Deixo aqui um trecho:


"Ele carregara sua carteira até que ela fizesse um buraco nas calças. Então um dia se sentou à beira da estrada e a tirou e examinou seu conteúdo. Algum dinheiro, cartões de crédito. Sua carteira de motorista. Uma fotografia de sua mulher. Espalhou tudo por cima do pavimento. Como cartas de baralho. Arremessou a peça de couro. enegrecida pelo suor, dentro da floresta, e ficou sentado olhando para a fotografia. Então colocou-a sobre a estrada também e se levantou e seguiram em frente." (p. 46)



Neste fim de tarde, antes de retomar o livro, para terminá-lo, paro para agradecer a Cormac McCarthy, por me proporcionar mais esse encontro com a beleza, que só os bons livros podem intermediar. Obrigado, então.



Do Jorge.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A vida bate


Olá!




É alta noite, termino aqui uma coisinhas no computador para poder ir dormir. Não sem antes levar um livro para cama (neste caso, "Paciente particular", um romance policial de P. D. James, meu vício, como sabem). Não sem antes postar também um poema, como hábito (e não sou monge!).


Há algumas semanas, liguei a tevê e num canal qualquer passava uma entrevista com o Ferreira Gullar. Tudo naquele esquema eu-vou-perguntar-o-óbvio-e-você-responde-o-óbvio-também... nem prestei muita antenção. Mas o final. O final me deixou em alfa. O apresentador Sérgio Chapelein (aquele do Globo Repórter) leu (magistralmente, diga-se) o poema "A vida bate", do Gullar, enquanto eram exibidas imagens dos transeuntes pelas ruas do Rio de Janeiro, cidade da América Latina, como diz o texto. Fui às lágrimas. Pensei nele hoje, no texto, e posto aqui para vocês:



A VIDA BATE


Alguns viajam:
vão a Nova York,
a Santiago do Chile.
Outros ficam
mesmo na Rua da Alfândega,
detrás de balcões e de guichês.
Vista do alto,
com seus bairros e ruas e avenidas,
a cidade é o refúgio do homem,
pertence a todos e a ninguém.
São pessoas que passam sem falar
e estão cheias de vozes
e ruínas.
És Antônio ?
És Francisco ?
És Mariana ?
Onde escondeste o verde
clarão dos dias?
E passamos
carregados de flores sufocadas.
Mas, dentro, no coração,
eu sei,
a vida bate.
Subterraneamente,
a vida bate.
Em Caracas, no Harlem, em Nova Delhi,
sob as penas da lei,
em teu pulso,
a vida bate.
E é essa clandestina esperança
misturada ao sal do mar
que me sustenta
esta tarde
debruçado à janela de meu quarto em Ipanema
na América Latina.


(Ferreira Gullar)


A vida bate, também aqui, em São Mateus, poderíamos completar.



Do Jorge.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

De volta ao batente

Olá!
Passei o mês de janeiro de molho, não postei nada. Tirei férias até desse blog. Mas agora estou de volta ao batente. Amanhã também recomeçam as aulas, quer dizer, o nosso planejamento coletivo (os alunos retornam na segunda). É hora de religar as máquinas, preparar o espírito para mais um ano (que agora de fato começa). Reativar, como agora reativo esse blog.
E, para não perder o costume, eis o meu poeta do dia: Lawrence Ferlinghetti. Norte-americano, Ferlinghetti é o decano dos poetas beatniks, o único ainda vivo, produzindo textos no alto dos seus 91 anos. Nos intervalos, têm fôlego para dirigir a City Lights, a livraria mais prestigiada de São Francisco, Califórnia, sua há mais de 50 an0s. Dono de um estilo que beira a irônia e o sacrilégio, Ferlinghetti consegue arrancar sacações extremamente sensíveis de seus versos, como neste, que posto aqui:
AUTOBIOGRAFIA
Sou um lago na planície.
Uma palavra
numa árvore.
Sou uma montanha de poesia.
Uma blitz no inarticulado.
Sonhei
que todos os meus dentes caíram
mas a língua sobreviveu
para contar a história.
Porque sou um
silêncio
poético.
(IN: "Um parque de diversões da cabeça", 1958)
Do Jorge.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Um pouco de calor


Olá!



Sou daqueles que consideram a letra de canção poesia, todos sabem. Minha dissertação de mestrado provou (bom, acho que provou) isso através dos textos do Caetano que analisei. Por isso que, vira e mexe, aparecem aqui canções/poemas. Como hoje.

Hoje está um forno. A janela aberta e nada. São Mateus arde. Parece maio, como naquele poema da Adélia Prado ("em maio a tarde não arde, fulgura"). O suor escorre tão logo saímos do banho, tudo fica lento, o cérebro parece fritar enquanto tentamos pensar. No entanto, nessa noite hipercalorenta, acabei pensando o contrário. Quer dizer, a idéia que me veio agora, quando lembrei da entrevista do compositor Dan Nakagawa, autor da canção "Um pouco de calor", entrevista que está nos extras do dvd "Inclassificáveis", do Ney, que a gravou. O Dan diz que fez essa canção quando passava uma temporada em Berlim, em pleno inverno europeu (como agora). Ele diz que, mais que qualquer outra coisa, sentia absoluta falta do calor brasileiro, pois na capital alemã se sentia duplamente frio: o clima e as pessoas eram frios. Daí a saudade do calor. Pensei nisso hoje e pensei na canção, que posto aqui:


Saí à toa nessa madrugada
Sem saber porquê
A noite daqui é tão linda e faz me perder
Penso num belo horizonte em poder te ver
Sei que eu não tenho mais nada a perder

Meu carro que não quer mais andar
Essa noite que não quer terminar
Onde está você meu amor?
Eu preciso de um pouco de calor

Saí à toa nessa madrugada
Sem saber porquê
A noite daqui é tão linda e faz me perder
Penso num belo horizonte em poder te ver
Sei que eu não tenho mais nada a perder
Se eu não tenho mais nada a perder
No meu peito eu tenho você
É nessa estrada que eu quero estar
Eu quero o dia, a noite e o mar e cantar

Meu carro que não quer mais andar
Essa noite que não quer terminar
Onde está você meu amor?
Eu preciso de um pouco de calor
(Dan Nakagawa)


Achei uma alternativa poética, uma maneira legal de encarar o calor desse verão, que começou ontem. E que promete muito, muito mais calor.



Do Jorge.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Resumo de um domingo:

Olá!
Eis o domingo, este: uma xícara de café, bem forte, Gal na vitrola, a mesa cheia de provas e diários. Por isso, sem tempo para postar algo legal por aqui.
Do Jorge.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Bob Dylan


Olá!



Nesses dias atribulados de fim de ano, entre as obrigações na escola e a correria normal que todo ano que termina traz consigo, registro que tenho ouvido Bob Dylan à exaustão. Sempre gostei dele, mas agora o estou achando meu ídolo, ao lado do Caetano. Tanto que estou começando a ver um pouco de luz na minha eterna pesquisa para o doutorado. Isso porque decidi que o ano que vem, tento as provas para começá-lo. Adiei em demasia. Por conta do tempo, da dificuldade de ir ao Rio ou a Sampa semanalmente para as aulas. Mas agora o Mestrado em Letras da UFES teve a autorização da Capes para implantar o doutorado. Me animei logo, mas não tinha um projeto em mente.

Não tinha. Mas agora, sinto começar a ser gestada em mim a idéia de trabalhar Dylan e Caetano. Seria uma ampliação da minha dissertação de mestrado (que foi exclusivamente sobre a intertextualidade em Caetano Veloso), incluindo uma análise das interrelações textuais entre as canções dos dois, que, embora pertencendo à tradições musicias e poéticas diversas, são quase irmãos gêmeos, ambos grandes letristas, grandes performers, grandes músicos. É uma idéia que, agora no verão, quero pôr no papel.

E enquanto vou pensando (e ouvindo Dylan), posto aqui a letra de "Jokerman", uma das minhas canções diletas do Bob e que Caetano gravou, nos anos 90. A tradução? Pesquei na net, não encontrei o tradutor, por isso não dou o crédito. Segue:


JOKERMAN (O coringa)


Sobre as águas, jogando seu pão,
Enquanto os olhos do ídolo, com a cabeça de ferro, estão brilhando.
Barcos distantes rumo à bruma seguem seus cursos,
Você nasceu com uma cobra em seus pulsos, enquanto um furacão estava soprando
Liberdade logo ao virar a esquina para você
Mas, com a confiança tão longe, de que servirá?
Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Curinga.
O sol põe-se tão velozmente no céu,
Você se levanta e diz adeus para ninguém.
Tolos correm para lugares onde anjos temem pôr seus pés,
O futuro dos dois, tão cheios de temor, você não tem nenhum.
Mudando mais uma camada de pele,
Mantendo-se a um passo a frente do perseguidor dentro de você.
Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Curinga.
Você é um homem das montanhas, você pode andar nas nuvens,
Manipulador de multidões, você distorce sonhos.
Você irá para Sodoma e Gomorra,
Mas o que te importa?
Lá ninguém vai querer casar com a sua irmã.
Amigo do mártir, um amigo da mulher que causa vergonha,
Você olha dentro da fornalha escaldante, vê um homem rico sem nome.
Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Curinga.
Bem, o Livro do Livítico e Deuteronômio,
A lei da selva e do mar são seus únicos professores.
Na fumaça do crepúsculo sobre um corcel lácteo,
Michelangelo realmente poderia ter esculpido sua feição.
Repousando nos prados, longe do espaço turbulento,
Meio adormecido perto das estrelas, com um pequeno cachorro lambendo seu rosto.
Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Curinga.
Bem, o fuzileiro aproxima-se silenciosamente dos doentes e aleijados,
O pregador busca o mesmo, quem chegará lá primeiro é incerto.
Cassetetes e canhões de água, gás lacrimejante, cadeados,
Coquetéis molotov e pedras atrás de cada cortina,
Juízes pérfidos morrendo nas teias que eles mesmos tecem,
É só uma questão de tempo até que a noite se instale.
Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Curinga.
É um mundo sombrio, céus são escorregadiamente cinzentos,
Uma mulher acabou de dar à luz a um príncipe hoje e o vestiu de escarlate.
Ele irá pôr o padre no bolso, pôr a lâmina para aquecer,
Tirem as crianças sem mães da rua
E coloquem-nas aos pés de uma meretriz.
Oh, Curinga, você sabe o que ele quer,
Oh, Curinga, você não demonstra nenhuma reação.
Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Curinga.

(Bob Dylan, 1983)

Do Jorge.